Filósofos do século XVII levam pesquisador brasileiro ao coração da biblioteca do Vaticano.

Cidade do Vaticano

Filósofos que se dedicaram à área da lógica e da linguagem durante os séculos XVII e XVIII:  tema da pesquisa do professor Marcus Boeira, visitor scholar na Pontifícia Universidade Gregoriana em Roma, pesquisador na Gregoriana e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Este tema o levou semanalmente à Biblioteca Vaticana onde, por exemplo, podia se debruçar por longas horas sobre verdadeiras pérolas, como o Thesaurus indicus, deDiego de Avendaño,  professor de filosofia e teologia, jurista, reitor do Colégio São Paulo em Lima, Peru, no século XVII. Antes de voltar ao Brasil, em função do fechamento das universidades e da biblioteca vaticana devido éa Covid-19, o professor gaúcho conversou com o Vatican News.

“Pois bem, eu estou aqui como professor visitante na Pontifícia Universidade Gregoriana, vinculado junto à Faculdade de Filosofia, tendo em vista a confecção de uma pesquisa ampla em alguns pensadores, alguns filósofos que se dedicaram à área lógica e à área da linguagem durante todo século XVII e século XVIII. Então o meu objetivo é fazer uma investigação sobre os manuscritos e o inventário desses autores que hoje, na sua maior parte, a maior parte desses manuscritos estão ou no arquivo histórico da biblioteca da Pontifícia Universidade Gregoriana, o antigo Colégio romano da Companhia de Jesus, ou uma parte considerável desse acervo está na biblioteca do Vaticano onde eu também estou vendo como pesquisador. Então esse é o objetivo”.

No meio do seu trabalho, no meio da sua pesquisa, essa “novidade” do coronavirus e o retorno antecipado para o Brasil agora….

“A situação é difícil, pois com todas as universidades e bibliotecas fechadas aqui, por prazo indeterminado, o pessoal tem falado agosto, alguns têm falado em setembro, e ninguém mais sabe exatamente quando voltaremos a uma situação de normalidade aqui no país, ficaria um pouco difícil permanecer na Itália, tendo em vista o fechamento de todas as possibilidades de continuidade da pesquisa. Logo, o retorno para o Brasil nesse momento se faz imperioso. Não só em razão disso, mas também porque eu estou com minha família aqui, com esposa e com filho pequeno. Então é um pouco difícil. Mas a ideia é permanecer vindo todos os meses de fevereiro, todos os anos, para realização da pesquisa por um prazo indeterminado, o que também é prazeroso para alguém que tem também no coração a Itália como seu país de alma, que é o meu caso.”

Professor Marcus Boeira na Biblioteca do Vaticano

Professor Marcus Boeira na Biblioteca do Vaticano

Entrando agora no tema da tua pesquisa…. por que a escolha desse tema?

“É algo que de alguma forma desapareceu do horizonte dos filósofos atuais, a riqueza que um período e um setor específico de produção do pensamento filosófico nas suas mais variadas linhas e áreas em um determinado período da história, nos trouxe uma riqueza extraordinária para diversos campos da filosofia. No entanto esse período, que é o século XVII, foi praticamente abolido digamos da literatura, salvo pela análise que a maioria dos filósofos fazem relativamente, alguns autores muito pontuais. Só que existe uma outra parte desses autores – alguns dos quais dentro da Companhia de Jesus, da Ordem jesuíta – que simplesmente foram soterrados pela história e poucas pessoas hoje em dia, poucos pesquisadores – em parte pelo difícil acesso à língua latina, porque todo esse material está escrito em latim, e em parte também porque pouca coisa desses autores está publicada para as línguas modernas, vernaculares, com exceção aqui acolá no inglês e no espanhol, e também alguma coisa no francês – a maior parte daqueles que estão dentro da cultura filosófica, de algum modo esqueceram da riqueza desse material que é o material disponível nessas bibliotecas e em certas fontes de lugares de pesquisa. Então meu interesse pela literatura jesuíta do século XVII, pelos autores e filósofos jesuítas nesse período, é primeiro: pela riqueza que esses caras tinham, que esses autores tinham, relativamente ao pensamento filosófico, principalmente na área da lógica, da metafísica, da filosofia política, da filosofia do direito, mas também porque esses autores deram aos autores da antiguidade, de Platão, Aristóteles, e também autores medievais como Tomás de Aquino, Alberto Magno, uma interpretação muito particular, muito própria, muito específica. E isso sempre me chamou atenção desde o período como aluno na Faculdade de Direito e também na faculdade de Filosofia. Então, de alguma forma, sempre dediquei a minha vida acadêmica para o estudo da chamada Escolástica tardia, ou a Escolástica ibérica, ou a segunda Escolástica, que é, digamos, o pensamento teológico-filosófico, que no período, digamos, da Contra-Reforma, oferece todo um pano de fundo, um background para análise de certos temas filosóficos, como é o caso da minha área específica de investigação, que a lógica, aportes que são extraordinários. Então toda essa carga de interesse nesse período e nesses autores, tendo em vista o fato de que eles resgatam Aristóteles, resgatam Tomás de Aquino, resgatam aquilo que foi feito durante toda a Idade Média, com São Tomás, com Duns Scotus, com Boaventura e outros grandes teólogos e filósofos, a maneira como eles interpretam esses esses autores antigos e medievais, à luz dos fenômenos da atualidade, como Estado Moderno, os descobrimentos do Novo Mundo, os descobrimentos da América, o contato com as civilizações indígenas, etc, tudo isso trás do ponto de vista desses autores, uma inovação, uma novidade que é altamente importante para a civilização moderna. Então tudo isso me levou, há alguns anos, há mais de 15 anos, a focar a minha atenção, e portanto as minhas pesquisas, nesse conjunto de autores, traduzindo alguns deles, investigando alguns deles, e prestando muita atenção ao modo como cada um deles, alguns deles melhor dizendo, fornece soluções para termos filosóficos. Então esse é o motivo que me levou a estudar a chamada Escola de Salamanca ou Escolástica ibérica e Colonial.”

Fazendo uma ponte com nossa realidade no Brasil hoje. De que forma esse resgate histórico, esses pensadores, poderiam lançar uma luz, iluminar a nossa realidade, os diversos contextos de nossa realidade no Brasil ….

“Quando nós nos deparamos com esses autores, nos deparamos com a fundação do próprio do Brasil. Os fundadores do Brasil, eram alunos desses autores,  eram alunos diretos e indiretos. Por exemplo: o padre António Vieira, de saudosa memória,  cita inúmeras vezes o padre Francisco Soares, que é um desses principais autores do período. Cita também outros, como Domingo de Soto, que é um outro pensador do período, ou seja o padre Vieira – que é por assim dizer um dos nossos fundadores – é alguém que estava de alguma forma ancorado no ombro desses gigantes. E de alguma forma, quando nós olhamos para uma civilização nós precisamos prestar muita atenção no modo como os seus founding fathers, os seus pais fundadores, lançam luzes para essa mesma civilização. Nós, como brasileiros, somos lusitanos, a nossa civilização é a Ibéria, nós somos filhos da Península Ibérica. Então, se nós queremos encontrar algum sentido civilizatório para o nosso país, nada mais justo que a gente preste muito atenção nos nossos founding fathers, nos nossos pais fundadores. Um recuo ao passado é uma luz que se lança sobre o futuro. Por exemplo, todo o problema institucional que nós vivemos no Brasil, todo o problema da corrupção endêmica que marca as nossas instituições, toda falta de equilíbrio da classe política e também hoje em dia do povo, cada vez mais polarizado politicamente, tudo isso pode pode ser visto como – claro, há muitas causas para isso – mas uma delas certamente é essa ausência de um pano de fundo, de uma luz que sustente um equilíbrio e ao mesmo tempo uma moderação na visão de mundo. Nós, no Brasil, temos dificuldade de olhar para o futuro, porque nós não olhamos para o passado. As grandes civilizações que projetam o seu futuro, a primeira coisa que os grandes líderes, os estadistas, a classe política que tem em vista um futuro melhor para as suas respectivas nações, o que uma classe política saudável e sã faz, é olhar para trás, é apoiar-se nos clássicos, é apoiar-se na história, no teste duro, difícil, e ao mesmo tempo rotundamente das diferenças e dos contrastes que se apresentam ao longo da história daquela sociedade, porque ninguém é melhor, é conhecedor do seu próprio povo, do que o próprio povo. Quer dizer, o povo que vive por meio de uma interação direta, com as suas dificuldades, com as suas contradições…o produto bem acabado da sua civilização. Então, se nós queremos interpretar a civilização brasileira, nós temos que prestar atenção nos escritores brasileiros, nos escritores portugueses, que por sua vez estão ancorados nos filósofos portugueses e hispânicos, que por sua vez começam precisamente nesta geração. É como se essa geração pudesse, digamos assim, lançar uma espécie de holofote civilizatório sobre o Brasil e me parece que isso é o que me leva, e isso é o que eu creio que poderia levar uma boa parte dos pesquisadores e aqueles que se dedicam à academia no Brasil, ao ambiente de pesquisa na universidade brasileira, é o de prestar atenção em quais são os autores decisivos para a formação e para a fundação do Brasil. Por que o Brasil é o que é, e o que o Brasil poderia colher desses autores para ver no futuro, um país diferente daquele que nós temos hoje, para as gerações para os nossos filhos. Eu acho que é isso assim que me chama atenção nesse ponto.”

Thesaurus Indicus, uma das pérolas preservadas na Biblioteca

Thesaurus Indicus, uma das pérolas preservadas na Biblioteca

Você falou em cultura, civilização, começamos a conversa com os grandes filósofos. Seria possível ainda sonhar com o resgate ou a construção de uma verdadeira educação, capaz de oferecer um olhar mais amplo e mais profundo para a realidade..?

“Eu sou um partidário da educação pela liberdade e para a liberdade. E para isso, você precisa, obviamente, a palavra certa não é treinar, mas a palavra certa, isso sim, é de alguma maneira  oferecer as diferentes inteligências de informação, a possibilidade do próprio aperfeiçoamento. E esse aperfeiçoamento da Inteligência vem quando o estudante, ele realiza certas medidas e certas exigências que são necessárias para o seu próprio crescimento pessoal e intelectual e o seu próprio florescimento como ser humano. Por isso, os antigos tinham, aliás na educação, no método pedagógico da Companhia de Jesus isso era comum,  a ratio studiorum, o estudo das artes liberais, o estudo de certas disciplinas que são necessárias para a formação de todo aquele que quer de alguma maneira ingressar na vida intelectual e na vida de estudos, o conhecimento da gramática, o conhecimento da dialética, o conhecimento da retórica, a leitura dos clássicos, da literatura, enfim a leitura dos grandes autores, dos grandes produtores do espírito e do gênero de pensamento humano. Isso tudo, infelizmente, foi esquecido no Brasil, por várias razões. Então, o que me parece uma chave, que poderia ser, digamos, tomada aqui para o reflorescimento da sociedade brasileira à luz da educação? É precisamente o resgate disso, desses métodos que levam a criança e o adolescente a ter de confrontar-se com certas exigências que realiza, fazem com que elas, essas crianças, esses adolescentes, possam aperfeiçoar a própria inteligência, e assim fazendo, mergulhar no âmbito da cultura de uma forma mais consciente  e clara, sabendo exatamente o que se está fazendo, e também aumentando a sua capacidade cognitiva para explorar outros horizontes. Eu creio que se nós nos preocuparmos com isso nas gerações que aí estão, e que estão vindo, certamente nós teremos dados, digamos em um suposto Plano Nacional de Educação, muito melhores do que temos hoje. É uma questão de, obviamente, arregaçar as mangas e trabalhar, porque isso exige esforço e dedicação, exige que, ninguém gosta de ser digamos, mitigado nos seus prazeres, muito menos uma criança e um adolescente. Então, não adianta, há certas disciplinas que são necessárias para que mais tarde a gente venha a colher bons resultados. E me parece que uma educação simplesmente pautada na licenciosidade, no esquecimento das exigências,  e nos gostos e prazeres, independentemente das exigências e dos requerimentos, pode levar ao fracasso, que é exatamente o que tem acontecido no Brasil nos últimos anos. Então eu acredito que esse resgate de uma verdadeira educação, é o caminho que me parece mais mais saudável mais salutar nesse momento.”

Você falava dos grandes pensadores, cujo material se encontra disponível na Pontifícia Universidade Gregoriana e também na Biblioteca do Vaticano. Quando se fala Biblioteca do Vaticano, desperta sempre alguma atenção e curiosidade. Quem pode pesquisar na Biblioteca vaticana, como você fez para conseguir pesquisar dentro da Biblioteca vaticana?

“Bom, em princípio, todo pesquisador vinculado a uma universidade e com justificação apresentada, ou seja, a necessidade de mostrar que as obras que estão na Biblioteca do Vaticano e que são acessíveis apenas e tão somente na Biblioteca do Vaticano são imprescindíveis para a consecução da pesquisa – isto é considerado um motivo razoável para o ingresso – tendo isso, alguém pode postular a entrada na Biblioteca do Vaticano e, digamos, usufruir a sua extraordinária riqueza. De minha parte, eu quando vim para cá no final do ano passado, eu vim na qualidade de visiting scholar, de professor visitante da universidade, e também em estágio pós-doutoral. Então estou terminando meu estágio pós-doutoral, e também estou aqui como professor visitante. Então claro, como professor visitante, é muito mais fácil. Aí basta você apresentar sua carteira e você tem o ingresso. Claro, tu tens que fazer um trâmite  burocrático, ligar para a secretária executiva da biblioteca, a senhora Federica Orlandi, faço questão de dizer o nome dela e ao mesmo tempo abraçá-la, porque é uma pessoa muito querida e muito receptiva, foi muito gentil e muito cortês comigo, e ela de uma maneira muito caridosa e muito generosa recebe os pesquisadores, como recebeu a mim, para fazer pesquisas dentro da biblioteca, usando obviamente aquilo que é disponível como material utilizável para a finalidade da pesquisa. Obviamente, como o tema da minha pesquisa é a lógica no século 17, principalmente em alguns autores jesuítas que são, digamos, foram à época professores do Colégio Romano, antigo Colégio Romano da Companhia de Jesus, onde hoje é a Pontifícia Universidade Gregoriana onde estou, e outros autores que, embora as suas obras estejam na Biblioteca do Vaticano eram, à época, professores nos colégios da Companhia de Jesus no Novo Mundo, no México e no Peru, mais especificamente, como todo esse material está na Biblioteca do Vaticano, a minha única saída para avançar nos meus estudos e nas minhas pesquisas era passar alguns dias da semana na Biblioteca do Vaticano, realizando essas pesquisas. E um autor em especial, que é o Diego de Avendaño, que é um escolástico, em professor de filosofia e teologia, e também um jurista, que foi reitor do Colégio São Paulo em Lima, no Peru, no século XVII, o principal tratado do Avendaño, que é o Thesaurus indicus, o Tesouro das Índias, que é um tratado que está – uma das suas edições originais – está na Biblioteca do Vaticano, é uma edição de 1675, há uma parte desse material disponível no Google Books, mas não todo, então a consulta integral desse material só é possível na Biblioteca do Vaticano. Então é exatamente o que eu tenho feito desde que estou aqui, consultando a Biblioteca do Vaticano, as obras de lógica e filosofia da linguagem do século XVII desses autores, professores de filosofia no Colégio Romano e também Escolas Colégio da Companhia de Jesus no Novo Mundo, materiais que estão na Biblioteca do Vaticano e que só ali nós temos a possibilidade de acesso. A parte que não está ali, está precisamente no Arquivo Histórico da Biblioteca da Pontifícia Universidade Gregoriana, principalmente os manuscritos de aulas. Então, no período que eu tenho estado aqui, e que se prolongará – ficarei vindo todos os anos para cá para a realização dessa pesquisa – a ideia é traduzir boa parte desses manuscritos e traduzir boa parte desses autores do latim para a língua portuguesa, tendo em vista uma publicação futura no Brasil ou em Portugal. Então esse é o grande objetivo, além obviamente de escrever artigos científicos e livros – agora vou lançar o livro sobre “Lógica em Avendaño no Brasil” e estou também confeccionando o artigo, em italiano, para publicar aqui na revista da Pontifícia Universidade Gregoriana, sobre a mesma temática. Esse então é o foco específico da pesquisa.”

Obras em latim preservadas na Biblioteca

Obras em latim preservadas na Biblioteca

Esses livros antigos pesquisados na Biblioteca Vaticano,  são daqueles livros tipo pergaminhos antigos que somente podem ser manuseados com o uso de luvas ou são documentos digitalizados consultados online… ?

“A maioria não está digitalizado, então a consulta ela exige todo um cuidado, sem dúvida. Alguma setores, obras por exemplo raras, anteriores à 1600, você só consulta com autorização expressa da Secretaria-Executiva da biblioteca e com luvas. Só que existe um outro setor ainda mais secreto, que é o Arquivo Secreto do Vaticano, que agora é o Arquivo Apostólico, exatamente, que em março tivemos abertura de todos documentação relativa ao Pontificado de Pio XII, então muita coisa, até em tom  paradoxal, foi importante para desmistificar e desmentir boa parte das mentiras que alguns setores da historiografia plantearam nos últimos 50 anos a respeito do Pontificado de Pio XII, mostrando exatamente que Pio XII era muito mais prudente e ao mesmo tempo um estadista do ponto de vista não só eclesiástico, mas sobretudo político do que se imaginava, foi um extraordinário Papa, um grande Papa da Igreja Católica, Pio XII. Então na Biblioteca, nós temos essa distinção, digamos, das áreas dos tempos e da raridade dos materiais, o que exige obviamente um aporte todo especial. No Arquivo Secreto, por exemplo, quem entra na Biblioteca do Vaticano, para entrar no Arquivo Secreto, precisa ter uma razão, uma justificativa, altamente importante,  que não se resume apenas ao âmbito de pesquisa, deve ter a pertinência também da pesquisa frente à Santa Sé. Para a Santa Sé precisa ser um motivo importante, um motivo às vezes de Estado, para consulta no Arquivo Apostólico. Algo que não existe na Biblioteca Vaticana, que é uma biblioteca, digamos, mais aberta para os pesquisadores como tais. Eu por exemplo, eu trabalho na Biblioteca vaticana, mas tem alguns conhecidos, um amigo que trabalha no Arquivo Secreto, que agora é Arquivo Apostólico. Então ele tem uma razão, uma justificativa para estar ali, porque a pesquisa dele é altamente decisiva para a história do Brasil, que são os documentos sobre as relações diplomáticas entre o Itamaraty e a Santa Sé no período, digamos, bastante interessante, que é o período do início da diplomacia brasileira, com Rio Branco, etc. Então, é uma pesquisa significativa para o entendimento, para eventualmente mudar até todo entendimento que existe sobre as relações entre Brasil e Santa Sé desse ponto de vista jurídico-institucional. A minha pesquisa, é uma pesquisa mais  filosófica, ela não tem um impacto na historiografia das relações políticas. A minha pesquisa se dirige mais ao aspectos da filosofia propriamente dita, tem uma relevância, digamos, abstrata, não tanto concreta. Mas ainda assim, os espaços da biblioteca, e sobretudo a arquitetura da biblioteca é uma coisa extraordinária. O Papa Sisto V foi absolutamente extraordinário do ponto de vista da, digamos, montagem estético-arquitetônica de espaços dentro da Cidade do Vaticano, como é o caso da biblioteca, e como são outros espaços, como até mesmo os Museus Vaticanos, que você fica …. Eu eu não me cansava de visitar todo dia a Biblioteca Sistina, que fica no 4 andar,  logo acima da Biblioteca Vaticana, porque a arquitetura do lugar e os afrescos, é uma coisa assim absolutamente deslumbrante, a arquitetura do lugar, a beleza daquilo tudo. É impressionante!”

Os corredores do Arquivo Apostólico e a Biblioteca somam algumas dezenas de quilômetros. É permitido caminhar no meio de toda essa riqueza histórica…???

“Não, porque é tudo fechado. Como é tudo fechado, tem uma limitação de espaços. Agora é um material, obviamente, o que o que tem ali dentro, a maior parte das pessoas, mesmo pesquisadores, não tem a menor ideia. Nós não sabemos a riqueza que existe ali dentro. Talvez nem os cardeais saibam, nem as pessoas que acessam todos os dias aquilo sabem, porque é uma quantidade tão extraordinário de documentação, que certamente ninguém ao longo da história humana será capaz de conhecer de uma forma assim, eu diria, satisfatória toda a riqueza de detalhes que aquela documentação deva ter em relação a vários aspectos, a várias situações, não só temas que envolvem a filosofia, o âmbito especulativo da filosofia, mas sobretudo aquilo que envolve as relações políticas e institucionais da Santa Sé com os países, com as organizações internacionais, com os tempos históricos, você vê, exemplo, na Biblioteca Sistina, você sobe lá e tem um presente do Imperador Carlos Magno, por exemplo. Aí você fica pensando assim: “Puxa vida, esse vaso aqui, é um presente do Carlos Magno para a Santa Sé. Meu Deus do céu! Olha quantos séculos de história tem isso. Carlos Magno, quer dizer, praticamente o fundador da Europa, da civilização europeia tal como nós a conhecemos hoje. Uma espécie de unidade. Claro, o Carlos Magno restaurou o Império Romano, mas ainda assim foi mais decisivo porque já sob a égide de uma autoridade espiritual sobre os povos da Europa, o Carlos Magno conseguiu estabelecer uma espécie de unidade entre diferentes povos de diferentes tradições: os bárbaros, os cristãos convertidos, os povos do norte, etc. Então, um homem daquela importância, e aí você vê ali, você se depara com um presente que ele deu à Santa Sé, então é uma coisa assim impressionante. Vários presentes que Papas receberam ao longo da história, documentação farta sobre Ordens religiosas na Idade Média então nem falo, porque é uma coisa tão óbvia, tão usual, que seria chover no molhado, mas eu me refiro assim a situações que são até bem mais antigas, documentos que comprovam, por exemplo, o martírio de Santa Sabina, coisas dessa natureza, que são impressionantes do ponto de vista histórico, documentações que envolvem, por exemplo, as Igrejas dos Santos Mártires da Igreja primitiva aqui em Roma. Por exemplo, a Igreja São Lourenço fora-dos-muros, existe toda uma documentação sobre a construção da Igreja de São Lourenço fora-dos-muros. E coisas dessa natureza,  quer dizer, outros documentos que envolvem a vinda de Santa Helena, das Cruzadas, e a quantidade de materiais supostamente originários que ela trouxe para Roma, materiais que eram da vida de Cristo, objetos, por exemplo,  pedaços da Cruz de Cristo, alguns pregos da Cruz de Cristo que estão na Santa na Igreja de Santa Croce in Gerusalemme, e coisas dessa natureza, quer dizer toda a documentação que explicita aquilo que está visível para aqueles que quiserem visitar essas basílicas papais ou não papais aqui em Roma. Quer dizer, se depara com a documentação que dá, digamos, sustentação histórica, de fonte primária, sobre esses acontecimentos. Tudo isso a Biblioteca do Vaticano tem nos seus arquivos. Agora, se alguém conseguirá fazer uma investigação sobre todos esses fenômenos, eu tenho cáminhas dúvidas, dada quantidade de coisas que tem ali.”

Visita de Bento XVI à Biblioteca

Visita de Bento XVI à Biblioteca

Um ambiente fascinante, rico de história, de beleza. Nessas  idas à Biblioteca vaticana, algum fato que o tenha marcado, alguma peculiaridade….

“Bom, algumas coisas me marcaram. Por exemplo, uma das coisas que me marcou, embora não tenha sido um acontecimento, foi um quase acontecimento, mas mesmo assim ele marcou, que um dia que eu estava chegando, eu vi uma movimentação de pessoas fora do normal, e eu cheguei para uma das funcionárias: “Mas o que aconteceu aqui?” “O Papa Bento XVI acabou de sair daqui, acabou de sair daqui.” E depois eu procurei no Instagram as imagens de Monsenhor Gaenswein, eu o acompanho, e vi que ele estava consultando uma obra em lugar que fica na frente do lugar onde eu normalmente fico na biblioteca. E eu fico pensando: “Puxa, se eu tivesse chegado uma hora atrás, eu teria me deparado com Papa Bento XVI. Isso é uma coisa que me marcou,  pelo carinho que eu tenho pelo Papa Bento XVI. E não foi uma coisa surpreendente, nem isolada, não se isolou o ambiente prá vinda do Papa Bento XVI. As pessoas que estavam ali viram ele. Eu confesso, que se eu estivesse aí e o Papa Bento XVI tivesse chego naquele momento, eu teria pedido um autógrafo, eu ia fazer o papel de um fã incondicional, porque eu ia pedir um autógrafo para ele, com certeza!”

* Marcus Boeira, Visiting Scholar na Faculdade de Filosofia da Pontifícia Universidade Gregoriana em Roma; professor de Filosofia do Direito e Lógica da Faculdade de Direito da UFRGS, Doutor pela USP.   Instagram: @dalighierimb   Youtube: Marcus Boeira

Fonte:
https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2020-05/professor-marcus-boeira-pequisa-filosofos-seculo-xvii-vaticano.html?fbclid=IwAR0_N64oJZ6Cy91qvU0fP5jrcuME8hUGPIxP_zXLVcyTmVMtQmJG5wZvqmA

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